Setembro Amarelo Uma reflexão sobre o suicídio

Uma reflexão sobre o suicídio

Por Alice Alexandre Alves de Santana, psicóloga, psicanalista e especialista em Psicologia Hospitalar

Por que a morte se apresenta como única saída para algumas pessoas? E quem é essa pessoa que decide morrer?

Somos colocados diante dessas e tantas outras inquietações frente à temática do suicídio, mas muitas vezes o desconhecimento sobre o tema e a angústia de não compreendê-lo resulta em explicações reducionistas e precipitadas.

O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial que pode afetar indivíduos de diferentes origens, faixas etárias, condições sócio-econômicas e culturais, orientações sexuais e identidades de gênero. (Guia intersetorial de prevenção do comportamento suicida em crianças e adolescentes, 2019)

Segundo o dicionário informal, o termo suicídio tem origem no latim – sui (si mesmo) e caederes (ação de matar) – conotação que especifica a ação voluntária de tirar a própria vida. Mas do que se trata realmente? Matar a vida ou matar o sofrimento que se torna intolerável à vida? Silenciar uma angustia avassaladora frente às exigências internas e externas?

As tentativas de suicídio ou sua concretização envolvem uma intensa dor psíquica que pode estar relacionada a diversos fatores, sendo que os quadros psicopatológicos caracterizam-se como os principais fatores de risco, sobretudo a depressão.

É caracterizada por um estado de humor deprimido, além de outros sintomas, tais como tristeza profunda, desinteresse pelas atividades cotidianas, irritabilidade, alterações no sono, no apetite e na libido, isolamento social, pensamentos negativos e desesperança em relação à vida. Esses sintomas podem variar em termos de intensidade em cada pessoa, sendo que a ideação suicida e tentativas de suicídio podem se apresentar como resultado do agravamento e/ou não tratamento do quadro.

Existem inúmeros outros fatores que podem ser relacionados com as tentativas de suicídio, tais como traços de impulsividade associados ao uso abusivo de álcool e drogas e à vivência de situações estressantes ou traumáticas. Também podem acontecer como consequência de crises de natureza afetiva, vivências de perdas, doença crônica, experiência de violência intra ou extra familiar, entre outros.

Contudo, é importante ressaltar que não se trata de uma relação causal, mas sim de fatores que se apresentam como sinais de alerta, que se forem reconhecidos previamente, as chances de preveni-los se tornam maiores.

 

Precisamos cuidar do outro

Podemos observar um aumento significativo nos casos de suicídio nos últimos anos, sobretudo entre os adolescentes, sendo que segundo os dados da Organização Mundial da Saúde (2014), caracteriza-se como a segunda maior causa de morte no mundo entre jovens de 15 a 29 anos. No Brasil é a quarta maior causa de morte nesta mesma faixa da população.

Mas por que algumas pessoas, diante das pressões e exigências da vida, tentam o suicídio e outras não?

É de fundamental importância o cuidado e a atenção à singularidade sempre presente no sofrimento humano. A forma com que cada um poderá lidar com determinadas experiências dependerá também de sua própria organização psíquica, ou seja, da posse de recursos internos mais ou menos estruturados.

Algumas situações de tentativas de suicídio são resultantes de contextos nos quais o sujeito se vê acometido por uma invasão de estímulos que seu aparelho psíquico mostra-se incapaz de processar. Assim, diante da vivência de intensa dor psíquica, para algumas pessoas o ato de matar-se parece ser a única via de descarga possível.

Observa-se que por muito tempo as pessoas (ou a sociedade em geral) respondiam ao comportamento suicida com o silêncio, um voto de não discussão. É imprescindível que cada vez mais seja desmistificada a ideia de que falar sobre suicídio incita o desejo do outro de cometer tal atitude.

Quando o sofrimento tem lugar e é reconhecido socialmente, o sujeito pode conseguir transformar a vivência em experiência, ampliando a percepção de possibilidades de enfrentamento. Daí a importância de uma rede de apoio para auxiliar essas pessoas nesse momento tão precário, marcado muitas vezes pela ambivalência de sentimentos, ou seja, um conflito interno entre o desejo de viver e morrer.

Suporte, apoio e compreensão dos familiares contribuem efetivamente, além de ser indicado o acompanhamento de profissionais especializados na área da saúde mental, sobretudo o tratamento psicológico, uma vez que estes poderão oferecer uma escuta adequada e legitimação de seu sofrimento, auxiliando no fortalecimento de recursos psíquicos para ressignificação do momento vivenciado.

Além destes, outros recursos, tais como o Centro de Valorização da Vida (CVV), podem ser acessados, visto que consistem em canais de acolhimento aos conteúdos emocionais despertados nessa fase.

 


Alice Alexandre Alves de Santana

Alice Alexandre Alves de Santana é psicóloga, psicanalista e especialista em Psicologia Hospitalar. Integra equipe no Hospital e Maternidade Christóvão da Gama.

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