Saúde: reflexões sobre o futuro

No debate sobre qual sociedade seremos após a crise gerada pela pandemia do novo Coronavírus, o setor hospitalar faz os seus planos para a retomada da “nova” normalidade de seus atendimentos.

Trata-se de um planejamento difícil, até que a população esteja realmente protegida, seja por uma vacina, seja pela tal imunização “de rebanho” – uma tese equivocada –, que seria alcançada ao custo de milhões de vidas. Por enquanto, sabemos que a única solução para o controle dos casos são o isolamento, o distanciamento social, a manutenção de hábitos rígidos de higiene e o uso de máscara de proteção. Isso, claro, para aqueles que não aceitam falar de estabilização da doença diante da média diária ainda elevada na taxa de mortalidade.

Mas isso não nos impede de aproveitar a oportunidade e refletir sobre o momento atual, como forma de promovermos mudanças necessárias que são urgentes.

Os hospitais sofreram um forte impacto entre os meses de março e abril. Além do atendimento emergencial dos casos de Covid-19 – com a corrida aos insumos escassos e aumento de preços, da implantação de protocolos, treinamento das equipes assistenciais e da criação de fluxos e instalações para garantir a segurança de pacientes e profissionais – o atendimento a outras doenças praticamente sumiu.

Mesmo as pessoas que precisam de atendimento para casos crônicos ou emergenciais estão em suas casas com medo de serem contaminadas, o que é um grande erro. Como resultado, temos instituições privadas com um percentual importante de seus leitos e serviços inativos, justamente por conta do isolamento.

Os problemas de saúde não diagnosticados neste momento terão tratamento mais custoso no futuro próximo. Por outro lado, há uma grave crise econômica, que gera desemprego e, consequentemente, perda de planos de saúde financiados pelas empresas, que representam quase 90% de toda a assistência privada.

Há vetores desta avaliação que também independem de nossa gestão: a retomada econômica pode não acontecer em “V”, mas em “W”, com a ocorrência de uma segunda onda. Ou seja, temos uma crise setorial que pode se aprofundar nos próximos meses. Com este cenário, os elos da saúde suplementar precisarão atuar de maneira realmente diferente, caso queiram manter a sustentabilidade de suas atividades.

Hoje, os hospitais continuam trabalhando por produção e não pela entrega de resultado. Enquanto tentamos antever o futuro, insistimos em oferecer uma assistência remunerada por serviços prestados (fee for service), quando poderíamos entregar um novo modelo, muito mais resolutivo, de qualidade superior e a um custo menor para empresas e pessoas, baseado em princípios de medicina primária e que olhe o indivíduo em sua integralidade.

Neste novo modelo, os prestadores da saúde deveriam ser remunerados pela resolutividade, pelo não uso dos hospitais. Mas preferimos falar sobre modernidade utilizando como exemplo a telemedicina, que existe há anos e teve que ser implantada oficialmente à força, diante da imposição dos fatos, sendo que o Skype existe há mais de 20 anos.

Florence Nightingale, patrona da enfermagem, já utilizava a estatística no século 19 para atendimento aos seus pacientes. Hoje, com ferramentas muito mais modernas, precisamos usar princípios de data analytics para fazer a gestão da saúde dos pacientes com maior previsibilidade, compartilhamento de risco, reduzindo o custo assistencial. É possível fazer isso em parceria com empresas ou com a gestão de carteira dos planos de saúde.

Praticamente todos os setores econômicos vêm passando por transformações muito rápidas e se adaptando a uma nova realidade. Não podemos ficar amarrados ao mesmo sistema de remuneração – ou pior, engessados a uma forma de entrega de saúde que não faz mais sentido para quem paga, para quem recebe e, principalmente, para quem precisa de atendimento.

Rodrigo Lopes, CEO do Grupo Leforte

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