Saúde digestiva e a hérnia inguinal

Saúde digestiva e a hérnia inguinal

Estima-se que 5 a 10% da população adulta masculina e cerca de 2% da feminina sofra com hérnia inguinal, que é uma saliência da parede abdominal que ocorre na região da virilha direita ou esquerda. Pensando na conscientização sobre doenças ou distúrbios digestivos, o Grupo Leforte preparou uma série de entrevistas sobre o assunto com o Dr. Tércio Genzini e os cuidados necessários durante a pandemia de Covid-19.

O Dr. Tércio é especializado em cirurgia do aparelho digestivo e coordenador da equipe que realizou o primeiro transplante de pâncreas isolado bem-sucedido no Brasil e do primeiro transplante simultâneo de pâncreas-rim no Estado de São Paulo.

Em 2009, o grupo coordenado pelo Dr. Tércio iniciou programas de transplantes de fígado, pâncreas e rim no Hospital Leforte Liberdade, e essa parceria resultou em um dos maiores serviços de transplantes de órgãos abdominais – fígado, pâncreas e rim – entre os hospitais privados do Brasil.

 

Como ocorre a hérnia inguinal?

A parede do abdômen é como uma caixa fechada que contém os órgãos no seu interior. Existem áreas de fraquezas naturais que durante a fase embrionária estavam abertas para a passagem de estruturas vasculares e depois fecham-se naturalmente, como o umbigo, onde passavam os vasos umbilicais que se obliteraram e as regiões inguinais, onde passam os vasos espermáticos ainda patentes que nutrem os testículos.

Por este motivo, as regiões inguinais são os principais locais de ocorrência de hérnias, principalmente em homens, geralmente após 50 anos de vida, mas podendo ocorrer em qualquer idade.

Geralmente, situações que aumentam a pressão dentro do abdômen favorecem a formação da hérnia inguinal, como:

  • Prisão de ventre constante (constipação intestinal);
  • Tosse crônica;
  • Dificuldade para urinar;
  • Trabalho que envolve grande esforço físico;
  • Exercícios físicos com levantamento de peso em excesso.

 

Dúvidas sobre a hérnia inguinal e cuidados necessários durante a pandemia de Covid-19

 

  1. Quais são os sinais e os sintomas que podem ser indicativos de hérnia inguinal?

 A hérnia inguinal nem sempre apresenta sinais e sintomas, principalmente quando é pequena. Na medida que toma proporções maiores, a pessoa começa a perceber uma saliência na região (entre coxa e a parte inferior do abdômen), que fica mais perceptível ao tossir, espirrar e fazer algum esforço. Nessas mesmas situações, alguns pacientes sentem dores que ficam mais intensas na medida em que a hérnia escapa entre os planos musculares da parede abdominal e não volta, ficando “presa” (hérnia encarcerada). Além das fortes dores, essas complicações podem ser acompanhadas de náuseas e vômitos, o que pode significar obstrução intestinal dentro da hérnia, necessitando atendimento médico urgente.

 

  1. Se a pessoa tiver algum desses sinais ou sintomas, ela pode adiar procurar um médico em função do isolamento social provocado pelo Covid-19?

 Adiar o atendimento médico é possível apenas quando os sintomas são muito leves e não frequentes. Quando ocorre dor ao caminhar ou aos esforços, quando se nota um abaulamento num dos lados das regiões inguinais, aguardar pode ser arriscado, pois o médico deve examinar o paciente e avaliar qual o risco de complicações. Além disso,  quanto antes diagnosticada a hérnia inguinal, mais simples é o tratamento, que é  cirúrgico.

Geralmente, o médico consegue identificar a presença da hérnia com avaliação clínica e tocando a região, mas pode pedir exames de imagem para concluir o diagnóstico.

 

  1. O que pode acontecer se a pessoa com hérnia inguinal adiar a ida ao médico para prevenir o Covid-19?

 Um caso simples pode complicar. A hérnia é uma doença que pode evoluir gradativamente. Ela começa pequena e vai aumentando de tamanho conforme a fraqueza muscular, o peso do conteúdo abdominal e grau de esforço físico que o paciente realiza no dia a dia. Com o passar do tempo, as hérnias inguinais em homens, por exemplo, podem descer para a bolsa escrotal.

Outro caso de complicação da hérnia é quando ela atinge um tamanho intermediário, se exterioriza e encarcera. Nesta situação,  parte do intestino pode ficar aprisionado, formando a chamada “hérnia inguinal encarcerada” que pode evoluir com ou sem obstrução intestinal. O grande risco é que o encarceramento pode levar ao estrangulamento dos vasos que nutrem o intestino e à perda de circulação da parte do intestino que ficou presa, gerando necrose. Com isso, uma situação que antes era resolvida por uma cirurgia minimamente invasiva, por laparoscopia ou robótica, passa a necessitar de uma abordagem maior, às vezes por abertura convencional do abdômen e por vezes com ressecção intestinal (remoção de parte do intestino).

 

  1. Uma cirurgia agendada para corrigir uma hérnia inguinal pode ser adiada em função da pandemia de Covid-19?

 O Dr. Tércio Genzini orienta que pacientes que tiveram suas cirurgias adiadas voltem a conversar com seus médicos o quanto antes. A suspensão das cirurgias foi importante na fase inicial da pandemia pois houve um receio de que os centros cirúrgicos fossem transformados em unidades de terapias intensivas. Uma vez que isso não aconteceu, principalmente na rede privada que possui mais leitos de apartamentos e enfermarias, as cirurgias eletivas devem voltar a ser realizadas, sempre avaliando-se os riscos do paciente conforme seus hábitos e sua moradia”,afirma.

 Ele explica que, no caso específico de uma hérnia inguinal simples, a cirurgia padrão é realizada em cerca de 30 a 60 minutos e o paciente tem alta no mesmo dia. A preocupação em relação aos adiamentos é a necessidade de fazer uma cirurgia de emergência devido a complicações da doença, como a hérnia inguinal encarcerada, aumentando o tempo de recuperação e internação do paciente.

 

  1. Especificamente no caso de uma hérnia inguinal encarcerada, a cirurgia pode ser adiada?

Não, nesta situação deve-se avaliar o tempo de encarceramento e fazer um exame clínico minucioso do paciente. O médico pode tentar reduzir a hérnia, colocando-a de volta pra dentro do abdômen e programando cirurgia eletiva o mais breve possível, antes que aconteça de novo, ou a cirurgia deve ser feita em caráter de urgência. No caso da hérnia inguinal encarcerada, a parte enclausurada do intestino dentro da cavidade da hérnia, pode perder a circulação e ocorrer necrose, que é a morte do tecido. Dependendo da extensão do problema, a cirurgia além de tratar da hérnia na parede abdominal, retira a parte necrosada do intestino e une as partes saudáveis.

Vale ressaltar a importância do diagnóstico precoce para evitar a necessidade de tratamentos maiores e mais agressivos. Ao perceber sinais e sintomas incomuns, procure seu médico.

 

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