saúde digestiva vesícula

Saúde digestiva e a vesícula biliar

Segundo dados da Organização Mundial de Gastroenterologia, 90% da população que sofre com algum problema gastrointestinal não procura um médico para fazer acompanhamento. Pensando na conscientização sobre doenças ou distúrbios digestivos, o Grupo Leforte preparou uma série de entrevistas sobre o assunto com o Dr. Tércio Genzini, começando por problemas relacionados à vesícula, que atingem cerca de 20% da população adulta, e os cuidados necessários durante a pandemia de Covid-19.

O Dr. Tércio é especializado em cirurgia do aparelho digestivo e coordenador da equipe que realizou o primeiro transplante de pâncreas isolado bem-sucedido no Brasil e do primeiro transplante simultâneo de pâncreas-rim no Estado de São Paulo.

Em 2009, o grupo coordenado pelo Dr. Tércio iniciou programas de transplantes de fígado, pâncreas e rim no Hospital Leforte Liberdade, e essa parceria resultou no maior serviço de transplantes de órgãos abdominais – fígado, pâncreas e rim – entre os hospitais privados do Brasil.

 

Importância da vesícula biliar para a saúde digestiva

Com o formato semelhante ao de uma pera, a vesícula biliar é um órgão localizado abaixo do lobo direito do fígado. Ela armazena a bile, um líquido produzido pelo fígado que atua na digestão de gorduras no intestino. O Dr. Tércio conta que os problemas na vesícula são, basicamente, os seguintes:

  • Cálculos;
  • Pólipos;
  • Tumores benignos;
  • Tumores malignos;
  • Inflamações sem cálculos;
  • Inflamações relacionadas a obstruções por verminoses.

 

Os cálculos são os problemas mais comuns na vesícula biliar

Também chamados de pedras, “os cálculos ocorrem em um a cada cinco adultos acima de 40 anos de idade, sendo mais frequentes em mulheres que já passaram por gestações, em indivíduos com sobrepeso ou obesidade, colesterol elevado, doenças do fígado como cirrose hepática e diabéticos”, explica o Dr. Tércio.

Segundo o médico, nem todas as pessoas com cálculos na vesícula precisam ser operadas. “Como em todas as doenças, deve ser avaliado sempre o risco que o problema representa e a condição clínica do paciente”. Por exemplo:

  • Pessoas abaixo dos 40 anos – se não houver comorbidades, a indicação cirúrgica é mais frequente, mesmo sem sintomas. Isso porque a pessoa tem uma perspectiva de vida longa, atividade social e laborativa intensa e muito tempo pela frente sob risco de desenvolver sintomas. Entretanto, é pouco frequente a ocorrência de cálculos nessa faixa etária.
  • Pessoas entre 50 e 70 anos – deve ser analisado caso a caso. Como regra geral, deve ser operado quem apresenta sintomas e não tem contra indicações clínicas para a realização de cirurgias. Em pacientes sem sintomas, as indicações cirúrgicas mais aceitas são para casos com microcálculos (menores que 3mm), múltiplos cálculos, independentemente do tamanho, e cálculos grandes (maiores que 2cm), que são os que apresentam maiores riscos de desenvolver sintomas por migração dos cálculos ou obstrução da vesícula. Para pacientes obesos ou diabéticos, que podem ter complicações mais graves, ou aqueles que serão submetidos a um procedimento maior, como transplante ou cirurgias oncológicas, ou ainda aqueles que moram em regiões distantes, de difícil acesso a atendimento médico-hospitalar de qualidade, também pode ser oferecido o tratamento cirúrgico, mesmo sem sintomas.
  • Pessoas acima de 70 anos – se tiverem comorbidades, como problemas cardíacos, respiratórios e neurológicos e usar medicações que expõem a riscos, como anticoagulantes ou anti arrítmicos, a cirurgia deve ser indicada apenas se o cálculo produzir sintomas ou se já tiver apresentado algum episódio de migração ou inflamação aguda, sempre mediante, claro, da avaliação do quadro geral de saúde pelo clínico, geriatra ou cardiologista que acompanha o paciente.

 

Outros problemas da vesícula biliar

Em relação aos pólipos, que são o segundo problema mais frequente da vesícula biliar, o Dr. Tércio diz que só existe indicação cirúrgica se forem iguais ou maiores que 1cm ou se os exames de imagem mostrarem vascularização no interior deles que seja sugestiva de um possível tumor de vesícula em desenvolvimento.

Mas ele alerta que a maior parte dos diagnósticos de pólipos realizados ao ultrassom não são verdadeiramente pólipos, mas sim pequenas formações de colesterol chamadas de colesterolose (alteração na parede da vesícula biliar devido ao excesso de colesterol), que não produzem qualquer sintoma e não representam qualquer risco.

“Tumores benignos ou malignos, inflamações sem a presença de cálculos ou relacionadas a infecções parasitárias ou bacterianas, são operados na maioria das vezes desde que os pacientes estejam em condições clínicas para o procedimento”, explica o Dr. Tércio, que esclarece ainda várias dúvidas comuns em relação a problemas com a vesícula biliar:

 

1 – Quais são os sinais e os sintomas que podem ser indicativos de algum distúrbio na vesícula biliar?

Dr. Tércio Genzini – os principais sintomas relacionados a problemas na vesícula são intolerância a alimentos gordurosos ou condimentados, mal-estar ou dor em cólica na “boca do estômago” ou abaixo das costelas do lado direito do abdômen, que pode se irradiar para as costas ou para o ombro direito e tem início após refeições. As cólicas podem ser acompanhadas de náuseas, vômitos ou febre. No entanto, a maioria dos pacientes é assintomática.

 

2 – Se a pessoa tiver algum desses sinais ou sintomas, ela pode adiar procurar um médico em função do isolamento social provocado pelo Covid-19?

Dr. Tércio Genzini – quando esses sintomas ocorrem em jovens e são leves, normalmente são de pouca gravidade e de baixo risco. Então, é possível orientar em teleconsultas, marcando-se consulta presencial de forma eletiva, com horário marcado. Em pacientes acima de 40 anos, deve ser feito o diagnóstico mais breve possível, de preferência com consulta presencial, para que a história clínica (anamnese) e o exame físico tragam as informações necessárias à definição dos melhores exames a serem realizados e da melhor conduta, se clínica ou cirúrgica.

 

3 – O que pode acontecer se a pessoa adiar a ida ao médico para prevenir o Covid-19?

Dr. Tércio Genzini – se os sintomas estiverem relacionados a problemas da vesícula, os de baixa gravidade – como a cólica biliar, que é o mais frequente – podem evoluir e levar a complicações, tais como: colecistites agudas, migração de cálculos para o colédoco (coledocolitíase), abscessos na vesícula (empiema de vesícula), colangites (infecções das vias biliares), pancreatites (inflamações do pâncreas), fístulas da vesícula para o colédoco (Síndrome de Mirizzi).

Uma complicação simples, como a colecistite aguda, pode aumentar a complexidade e a dificuldade técnica do tratamento cirúrgico, aumentando os riscos e complicações relacionadas à cirurgia. As outras complicações podem levar à necessidade de internações em UTI, aumento do porte do tratamento e da permanência hospitalar.

 

4 – Uma cirurgia agendada em função de um problema na vesícula pode ser adiada em função da pandemia de Covid-19?

Dr. Tércio Genzini – se a cirurgia foi agendada, significa que o médico avaliou os riscos e benefícios do tratamento cirúrgico frente a manter o paciente apenas sob observação. Alguns casos podem ser postergados, desde que o paciente esteja orientado sobre: dieta e hábitos, sintomas de alarme que indicam a necessidade de nova consulta, e riscos de adiar. Ainda assim, se o paciente se automedicar e não procurar atendimento, poderá estar colocando sua vida em risco.

 

 

 

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