Câncer Qualidade de vida e uso eficiente de recursos

Oncologia e qualidade de vida

Em outubro, a comunidade oncológica terá olhos e atenção voltados para Copenhague, na Dinamarca, onde ocorrerá a conferência da ESMO (European Society for Medical Oncology). Trata-se de um dos mais importantes eventos mundiais da área e deverá reunir grandes nomes da especialidade. Assuntos relevantes como imunoterapia, inovações, perspectivas e Oncologia e qualidade de vida devem ser abordados com mais profundidade. Os mesmos foram discutidos durante congresso da ASCO (American Society of Clinical Oncology), considerado o principal do mundo na área.

O coordenador da Oncologia Clínica do Grupo Leforte, Hélio Pinczowski, esteve no evento da ASCO. Para ele, esses encontros são primordiais, e ajudam a entender o momento emblemático que vivemos, com Oncologia e qualidade de vida caminhando cada vez mais em paralelo. Também aborda de forma enfática o acesso a tratamentos e a gestão dos recursos.

 

Acompanhe a entrevista

Nos congressos, é forte a percepção de que existe acentuada preocupação na relação Oncologia e qualidade de do paciente. A que o senhor atribui esse movimento?

Quando falamos em tratamento oncológico e busca da cura, atrelamos cada vez mais a isso o prolongamento da vida com qualidade. Não queremos avançar nos tratamentos adicionando problemas, efeitos colaterais ou complicações.

Existe inclusive a preocupação com os custos (o que vem sendo chamado de “toxicidade financeira”), que interfere sobremaneira no estado emocional do paciente, ou seja, na qualidade de vida. Há, de modo geral, um número expressivo de pacientes que enfrentam várias dificuldades, e uma das mais desgastantes, sem dúvida, é a dependência financeira para conseguir tratamento adequado.

Então, são fundamentais questionamentos como acesso a tratamentos e utilização dos recursos da modo apropriado. Observe, uma medicação de alto custo para mieloma deve mesmo ser indicada a todos os pacientes com mieloma? Embora tenham o mesmo nome, as doenças se manifestam de formas diferentes. Não dá para fugir desse debate. Por isso, em paralelo aos novos medicamentos, cabe desenvolvermos ferramentas para auxiliar nessas questões. Oncologia e qualidade de vida devem caminhar sim em paralelo.

 

E como estamos vivendo mais, é uma situação que tende a se tornar ainda mais relevante, certo?

Sim, a população está envelhecendo e nós precisamos entender o tratamento nesse novo grupo. Pela tendência, nos próximos dez anos, teremos de lidar cada vez mais com esse cenário. A ideia é que se discutam qualidade de vida e uso racional do recurso disponível, pois não é tudo para todo mundo, a qualquer hora, a qualquer custo e de qualquer maneira. Saúde não tem preço, claro, e não é essa a discussão. O custo é extremamente elevado e talvez fosse mais importante identificar, por meio de mais pesquisas, quem se beneficia e quem pouco ou nada se beneficia. Cabe à ciência cuidar desse aspecto.

 

Imunoterapia

Câncer Qualidade de vida e uso eficiente de recursos

Em 2018, os congressos deram bastante espaço para a imunoterapia. Em 2019, essa abordagem de tratamento ainda aparece com muito destaque, certo?

Sim, acredito que a imunoterapia continuará, por um bom tempo, sendo uma opção bastante interessante para várias doenças. Possui um perfil de toxicidade muito baixo e pouco efeito colateral – quando ocorre, geralmente é de fácil manuseio. Mas ressalto novamente um ponto fundamental. Embora nós tenhamos resultados muito interessantes em vários tipos de neoplasias, como câncer de pulmão ou melanoma, a imunoterapia não funciona em todo mundo, assim como a quimioterapia. Temos questões genéticas que diferenciam a doença de um paciente para o outro. Portanto, o médico precisa estar atento aos adventos relacionados à terapia.

 

Justamente por ser um tipo de tratamento mais recente?

Exato. Ela vem sendo utilizada nos dois últimos anos e nem todo mundo tem experiência. É preciso estar atento às atualizações sobre os efeitos colaterais porque, ao instituir um tratamento no paciente com uma doença metastática, por exemplo, a última coisa que o médico deseja é adicionar problemas. Por isso o conhecimento da medicação e de seus efeitos colaterais é fundamental na instituição desses novos tratamentos. Mas sem dúvida, a imunoterapia vem trazendo esperança para muitos pacientes.

 

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Pesquisas

Sobre pesquisas… sem elas, esses direcionamentos ficam mais complicados? Como estamos nesse terreno, doutor?

Tem muita ciência, conhecimento científico e altos investimentos por trás de todas as pesquisas. Cada comprimido tem um vasto volume de informação científica. Precisamos saber como administrar essa conta, pois, de fato, são custos extremamente elevados e temos de achar soluções.

A indústria vem tentando desenvolver novos medicamentos, e estamos seguindo cada vez mais certeiros no caminho da Medicina de Precisão. No futuro, devemos ter um atlas de genes em que vamos pedir determinado exame ao paciente, identificar as possíveis mutações e buscar nas medicações disponíveis possibilidades para trabalhar a mutação de forma isolada. E caso desenvolva resistência, poderemos escolher outro medicamento.

 

As mutações são sempre um grande desafio para o médico e paciente, né?

Certamente. São ininterruptos os estudos sobre as mutações, e a pergunta sempre muito importante nessa esfera é: por que criou resistência ao tratamento? Realmente, trata-se de um grande desafio, até porque o tumor é sempre mais inteligente que os nossos tratamentos, pois consegue achar um caminho de escape para se desenvolver e multiplicar em outro local do corpo, de outra maneira. Talvez, o objetivo não seja curar, mas oferecer condições de controlar o câncer com qualidade de vida. Importa aos especialistas que o paciente não interne, não tenha complicações e consiga realizar suas atividades diárias, seguir com a vida, com a família e o trabalho. Mesmo que surjam efeitos colaterais, mas que tenhamos os recursos para controlá-los.

 

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Administração dos recursos na Oncologia

Câncer Qualidade de vida e uso eficiente de recursos Para concluir, gostaria de voltar a um dos pontos cruciais: recursos. Como administrá-los de forma responsável, doutor?

É algo que só funciona quando os esforços ocorrem de modo alinhado, porque, reforço, cada caso responde de forma diferente a um medicamento. Quero dizer com isso que alguns pacientes podem apresentar mais eficácia, por isso merecem a medicação? Absolutamente não tem nada a ver com merecimento, até porque não nos cabe avaliar o valor de vida de ninguém. O que é passível de análise é que o recurso é finito, por isso cabe à ciência identificar, molecularmente, do ponto de vista genético e de mutações, quando a possibilidade de resposta é realmente alta. Haverá sempre uma terapia mais eficiente para cada caso.

Mas tem outro viés fundamental: como fazer isso sem que o paciente se sinta penalizado? Esse uso racional exige que médicos, fontes pagadoras e entidades governamentais sentem-se à mesa e discutam. Talvez, se tratarmos muito precocemente esses pacientes, evitamos internações, procedimentos ou complicações custosas, como terapia intensiva. São políticas eficientes de prevenção aliadas ao uso inteligente dos recursos.

 

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