Benefícios do futebol para a saúde da mulher

O coração na chuteira

A Copa do Mundo de Futebol Feminino começa nesta sexta (07 de junho), na França, com a participação de 24 seleções. Embora seja a oitava edição, é a primeira vez que a grande mídia brasileira realmente abre espaço para a competição, com ampla cobertura, e que o principal canal aberto do país transmite ao vivo os jogos da seleção!

Isso mostra como o futebol feminino vem ganhando força no Brasil. Aos poucos conquista novos praticantes e mais admiradores, o que representa muito, e em vários aspectos! Para nós, entre os mais importantes estão os ganhos para a saúde.

De acordo com pesquisadores de Ciências do Esporte, da Universidade do Sul da Dinamarca, o futebol aprimora a capacidade cardiorrespiratória e os níveis de colesterol, além de outros benefícios. E ainda é possível gastar até 800 calorias durante uma partida!

Claro, os ganhos são para os dois sexos, mas nosso enfoque aqui é a saúde do coração da mulher.

Em entrevista, o coordenador do Centro de Cardiologia do Grupo Leforte, o médico cardiologista Heron Rached, fala sobre particularidades da população feminina e reforça: mais importante do que destacar um esporte é incentivar a adesão à prática esportiva.

 

Hospital Leforte – Para a mulher, podemos dizer que o futebol traz mais benefícios que outros esportes?

Dr. Heron Rached – Quando falamos sobre uma prática esportiva ser melhor que outra, precisamos considerar as variáveis. O futebol é um excelente esporte para o ganho cardiovascular e de condicionamento, sem dúvida, mas não podemos esquecer que expõe a mulher a situações traumáticas, como contusões.

A atividade física é sempre muito bem-vinda, tanto a aeróbica quanto a anaeróbica, que fortalece a massa muscular. Porém, há sim uma verdade invariável: a atividade aeróbica traz amplos benefícios cardiovasculares.

 

HL – É preciso uma avaliação mais abrangente antes de incentivar alguém a um tipo de esporte?

HR – Isso mesmo. Para qualquer atividade é necessário considerar as circunstâncias. Os grandes trabalhos na literatura médica apresentam vários vieses, porque levam em conta desde a população e seus costumes como as peculiaridades do local. Por exemplo, é adequado indicar caminhada a moradores de regiões montanhosas ou muito frias? É possível que a aderência seja baixíssima nesse caso.

Outro ponto que reforço é não se esquecer do alongamento. Não adianta desenvolver condicionamentos físico e cardiovascular se não tiver flexibilidade para pegar um objeto no chão. Já imaginou chegar aos 70 ou 80 anos sem ter equilíbrio para ficar em pé?

 

HL – A longevidade é consequência também da prática atividade física. Mas ela precisa se tornar hábito, certo?

HR – No caso das mulheres, aliás, é importante que o exercício físico seja hábito o quanto antes, porque não adianta se dedicar a uma atividade e torná-la regular depois de entrar na menopausa. Há estudos que indicam que pessoas com hábitos saudáveis e prática frequente de atividade física demoram mais para entrar nos períodos de menopausa e andropausa (no caso de homens).

* Períodos em que reduz a produção de alguns hormônios importantes – estrógeno na mulher e testosterona no homem.

 

HL – E o infarto, realmente pode ocorrer de forma mais grave em mulheres?

HR – Podemos destacar algumas características, mas a relação mais correta quando falamos em gravidade de um infarto é a idade.

Quanto mais precoce ocorrer, mais agressivo, pois é o fenótipo da doença. Se o infarto se manifesta em um indivíduo aos 25 ou 30 anos, é porque já tem, geneticamente, um caráter agressivo. Não vai trazer um dano pequeno ao coração, pelo contrário.

É preciso entender que, dentro do infarto, temos vários tipos de manifestações. Existem pacientes com lesões localizadas, as quais podem ser responsáveis por eventos graves. Outros pacientes apresentam lesões difusas. Isso é bastante variável.

Embora tendem a ter artérias mais finas e mais tortuosas, que são mais propensas à oclusão, o que tem mais relevância para as mulheres é a questão hormonal.

 

HL – O estrógeno, no caso?

HR – Sim. A mulher infarta mais depois dos 50 anos porque, dentro das artérias, existem células chamadas progenitoras, que estão em constante renovação. Um dos fatores para essa renovação nas mulheres é a presença de estrógeno. Com a queda na produção desse hormônio durante a menopausa, a taxa de turn over (renovação) também cai. Assim, ela fica tão suscetível quanto o homem a eventos cardiovasculares.

 

HL – Reposição hormonal ajuda?

HR – Não adianta. Esse tipo de oferta, de hormônio exógeno, não se mostrou eficaz para isso.

 

Saiba mais sobre doenças cardiovasculares em mulheres. 

Leia também: saúde do coração da mulher. 

 

Benefícios do futebol para a saúde da mulher HL – Novamente voltamos à relação prática esportiva e saúde da mulher…

HR – Exato. Entre os mecanismos pelos quais a atividade física beneficia a saúde cardiovascular está o estímulo à produção de células progenitoras. Além disso, dentro dos vasos existe a liberação de uma substância chamada óxido nítrico, e à medida que se pratica exercício, maior é a liberação dessa substância, responsável tanto pela distensão como pela contração das artérias. Ou seja, a função das próprias artérias se torna mais preservada na vigência da atividade física. A prática de futebol ajuda nesse processo.

E aliado a tudo isso, há outro hábito fundamental, principalmente depois dos 40 anos: os check-ups anuais. Tanto para mulheres quanto para homens, embora a percepção seja de que as mulheres costumam ser mais aderente aos exames.

 

HL – E o coração da torcedora, na arquibancada, também é colocado à prova?

HR – Sim, os níveis de estresse também podem ser elevados, mas torcer faz bem, integra e promove socialização. Confesso que fico muito feliz de ver a presença feminina em esportes como o futebol. Há alguns anos, pensar em uma mulher jogando futebol era coisa de vanguarda. Hoje, ela está dentro da quadra e também na torcida, e isso é muito saudável para a sociedade.

 

Hipertensão: saiba quais são os riscos. 

 

Benefícios do futebol para a saúde da mulher Números do infarto
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a taxa anual de mortalidade por problemas cardiovasculares é de 17,5 milhões de pessoas, aproximadamente. Desse grupo, quase a metade é formada por mulheres. São dados muito expressivos e equivalem aos relacionados a tumores de mama e útero juntos. Na América Latina, o Brasil lidera o ranking de mortes de mulheres vítimas de cardiopatias – três a cada dez mortes em mulheres com mais de 40 anos.
Pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM) com cerca de 700 voluntárias constatou que perto de 70% delas atribuem ao trabalho a grande carga de estresse — 55% das entrevistadas ultrapassam a carga de oito diárias no trabalho. Cerca de 50% relacionaram o estresse à ansiedade; 39% à família, 36% à violência; 29% ao trânsito.
Associado a isso, quase 70% delas apresentam hipertensão arterial e cardiopatias na família; 45% dormem menos de seis horas por noite (o mínimo são 7 horas de sono); 42% consomem bebida alcoólica.

 


Dr. Heron Rached, coordenador do Centro de Cardiologia do Grupo Leforte.

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