Era Digital e crianças

Era Digital e crianças: saúde física e mental

Artigo por Dra. Sandra Helena Albuquerque Giannini, coordenadora do serviço de Pediatria do HMCG


A tecnologia e a internet modificaram o comportamento humano e hoje vivemos o ápice dessa modernização. Estamos permanentemente ligados, conectados, cercados de informação por todos os lados e o tempo todo, inclusive na infância.

Há tempos a relação entre crianças e tecnologia divide opiniões, mas antes a questão se resumia em deixar ou não que assistissem à tevê.  Contudo, as telas não são mais exclusividade das salas, invadiram outros ambientes da casa e boa parte desses aparelhos pode ser carregada para qualquer lugar.

Com a evolução, os celulares, tablets, games e demais eletrônicos são inseridos no universo infantil cada vez mais cedo. Em muitos casos, esta inserção prematura é feita pelos próprios pais, e não é raro encontrar escolas que, já no ensino infantil, ofertam atividades envolvendo tablets, apps e outros similares para auxiliar no processo de aprendizagem.

Estudos científicos revelam que o mundo digital influencia comportamentos pela adoção de hábitos impróprios desde os primeiros anos da infância e na adolescência, momento onde o uso da tecnologia é ainda maior. Não é raro crianças pequenas que só almoçam ou só dormem depois de assistirem uma historinha no tablet. Estes comportamentos afetam o desenvolvimento afetivo, cognitivo e social da criança.

Crianças do século XXI nasceram em período no qual a tecnologia é o alicerce da manutenção das relações sociais, fazendo parte do dia a dia e da rotina delas. Dentro deste contexto, existem benefícios e prejuízos provenientes dessas tecnologias e o grande desafio é saber a dose certa – a linha tênue entre o remédio e o veneno.

Entre as principais consequências à saúde referentes ao uso demasiado da tecnologia por crianças e adolescentes estão aumento da ansiedade, dificuldade de estabelecer relações em sociedade, estímulo à sexualização precoce, adesão ao cyberbullying, comportamento violento ou agressivo, transtornos de sono e de alimentação, baixo rendimento escolar, obesidade, lesões por esforço repetitivo, exposição precoce a drogas, entre outros. Todos com consequências danosas tanto para a saúde física e mental individual como para a saúde familiar, escolar e da comunidade.

A Sociedade Brasileira de Pediatria lançou um conjunto de orientações em defesa da “Saúde das crianças e adolescentes na Era Digital”. Abaixo, trago algumas das recomendações da SBP:

 

Para crianças e adolescentes – aproveite para ler com as crianças e mostre para os adolescentes

  • Nas telas do mundo digital tudo é produzido como fantasia e imaginação para distrair ou afastar do mundo real – portanto, não se deixe enganar no mundo virtual;
  • A senha é só sua, não a compartilhe com absolutamente ninguém! Única exceção é para seus pais ou responsáveis, que respondem legalmente por você até completar 18 anos.
  • Preste atenção para não adicionar qualquer pessoa desconhecida e jamais marque encontros com pessoas estranhas ou conhecidas apenas da Internet, e que enviam mensagens solicitando encontros com você.
  • Cuidado ao utilizar a webcam. Evite a exposição se você estiver com pouca roupa ou se estiver em seu quarto ou mesmo em qualquer lugar, sozinho;
  • É preciso ser respeitoso também online, tratando os outros como gostaria de ser tratado. Afinal, você e qualquer pessoa merece respeito. Jamais repasse mensagens que possam humilhar, ofender, zombar ou prejudicar uma pessoa. Lembre-se: respeito!
  • Crescer e construir o seu corpo precisa de horas de sono e alimentação balanceada e saudável. Se você estiver se sentindo cansado, sonolento, com fome ou sem apetite, ou com dor de cabeça, nas costas, nos olhos ou nos ouvidos, desligue o seu celular ou seu computador, converse com seus pais. Se a dor persistir, pode ser hora de consultar o seu médico pediatra ou hebiatra.

 

Para pais ou responsáveis

  • Verifique a classificação indicativa de games, filmes, vídeos e demais conteúdos. Precisam ser recomendados de acordo com a idade e compreensão de seus filhos.
  • Estabeleça regras e limites bem claros, por dia ou para o fim de semana, sobre o tempo de duração em jogos. Defina também a entrada e permanência em redes sociais ou jogos de videogames online.
  • Discuta francamente com seus filhos sobre mensagens ofensivas, discriminatórias, ameaçadoras, constrangedoras, obscenas, humilhantes, confusas, inapropriadas ou que contenham imagens ou palavras pornográficas ou violentas.
  • Oriente seus filhos para que jamais forneçam senhas a qualquer pessoa, mesmo se for o melhor amigo. Também que não aceitem brindes, prêmios ou presentes oferecidos pela Internet, assim como jamais cedam a qualquer tipo de chantagem, ameaça ou pressão de colegas ou de qualquer pessoa online. Eles precisam estar seguros se, caso passem por situação semelhante, podem confiar e contar com os pais ou responsáveis.
  • Lembre-se que você é adulto, pai ou mãe, e, com a convivência diária, se torna um modelo de referência para crianças e adolescentes. Portanto dê o primeiro exemplo: limite o seu tempo de trabalho no computador quando estiver em casa. Mostre aos filhos a importância do tempo juntos, sem que ninguém esteja conectado.

 

Para educadores e escolas

  • Informe de modo adequado e detalhado sobre o uso ético, saudável e com segurança das tecnologias e aplicativos durante o tempo de convívio com as crianças e adolescentes nas escolas e cursos.
  • Realize atividades com os alunos e palestras de prevenção e proteção de todos, estabelecendo regras e limites no contato diário entre professores-alunos, alunos-alunos e evitando mensagens e encontros com desconhecidos, com o uso das tecnologias
  • Temas como sexualidade e exploração sexual online, comportamentos de violência, cyberbullying, uso de drogas, brincadeiras e desafios perigosos devem fazer parte do currículo escolar e da programação da escola em atividades ou palestras de promoção de saúde e prevenção de riscos
  • Fique atento aos sinais de riscos pessoais, sociais ou digitais que seu aluno possa apresentar.
  • Estabeleça redes intersetoriais com os pais e com as referências profissionais de especialistas para a proteção de sua escola. Deixe sempre em local visível como denunciar casos de violência, sexting ou cyberbullying ou qualquer outro problema – Disque-denúncia (tel. 100) ou acessando a rede SAFERNET (new.safernet.org.br).

 

Para pediatras

  • Avalie, aconselhe e oriente sobre o tempo de uso diário das tecnologias (celulares, videogames e computadores) durante a consulta e correlacione com os sintomas apresentados por crianças e adolescentes.
  • Avalie hábitos de sono, alimentação, exercícios, comportamentos e condutas com os colegas na escola, além do rendimento escolar e da dinâmica familiar.
  • Programe com as crianças e adolescentes e suas famílias um plano de “dieta midiática” de acordo com as idades e desenvolvimento cognitivo e maturidade.
  • Inclua nos protocolos de atendimento as rotinas que permitam tanto a prevenção como o diagnóstico e tratamento dos danos à saúde física, decorrentes do uso abusivo das tecnologias digitais, tais como: obesidade, distúrbios do sono, lesões articulares, problemas posturais, alterações da visão, perda auditiva, transtornos comportamentais e mentais dentre outros já demonstrados por diversos estudos da literatura científica.
  • Considere e avalie com mais atenção crianças e adolescentes que apresentem comportamentos agressivos, dissociativos entre o mundo real e o virtual, dependentes da tecnologia-Internet-videogame, que apresentem transtornos de sono, alimentação, higiene, uso de drogas ou queda do rendimento escolar ou apresentem sinais de violência, bullying, cyberbullying, sinais corporais de automutilação ou quando relatam “desafios” online com colegas da escola.

Conteúdo completo do Manual de Orientação da Saúde das crianças e adolescentes na Era Digital:

http://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/2016/11/19166d-MOrient-Saude-Crian-e-Adolesc.pdf

 

 


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