Fraturas em crianças

Fraturas em crianças e adultos: entenda as diferenças


Na sociedade atual, como pais, temos uma grande preocupação com nossos filhos quanto à dependência dos smartphones e jogos eletrônicos, que diminuem o interesse por brincadeiras ao ar livre e predispõem à obesidade infantil, depressão e superexposição à informação, gerando ansiedade.

No entanto, abordaremos aqui alguns aspectos sobre as fraturas mais comuns em crianças que vemos no dia a dia dos serviços de emergência dos hospitais. Dentre as mais prevalentes estão fraturas do punho, cotovelo e clavícula, que podem ser completas ou incompletas (chamadas fraturas em galho verde) e decorrem das quedas domésticas.

As fraturas mais complexas, como a de fêmur, úmero e coluna, vistas em acidentes mais sérios, como os automobilísticos e as quedas de grande altura são graves porém menos frequentes.

Mas antes, precisamos entender que o osso infantil e o osso de um adulto possuem características anatômicas próprias, e que essa distinção faz toda diferença.

 

Diferenças entre o osso adulto e o osso da criança

No raio-X simples, é possível ver as fases mais precoces do desenvolvimento ósseo após o nascimento.

A Fise (denominada também Placa Epifisária ou Placa de Crescimento), que se constitui de uma faixa na região distal, ou seja, próximo de extremidades dos ossos e que permite o crescimento ao longo da vida. No caso dos adultos, com a fase de crescimento já encerrada, esta placa fisária encontra-se fechada e, por isso, a capacidade de remodelação anatômica em adultos é menor.

Acima da placa Epifisaria está a Epifise, que no caso do fêmur, por exemplo, seria a futura cabeça femoral no adulto. Veja na imagem.

No entanto, apesar das crianças terem os ossos mais maleáveis e moldáveis, quando a energia do trauma danifica a fise óssea podem ocorrer assimetrias e deformidades, principalmente em osso longos, como o fêmur e a tíbia.

Quando examinamos uma criança no pronto-socorro vítima de queda, sempre nos baseamos pelo exame físico, como dor, inchaço, hematomas, falta de capacidade de realizar movimentos normais. Após a solicitação de raio-X ou tomografia, a análise minuciosa permite ver se a Fise óssea está normal ou com uma fratura.

Ao verem o raio-X normal do filho, os pais têm este questionamento e não entendem como esta “fissura no osso” pode ser uma imagem normal, se considerado um osso infantil.

Fise de crescimento (não confundir com fratura)

 

A estrutura óssea infantil é composta por quatro zonas:

a) Zonas de células cartilaginosas em repouso: é uma camada germinativa que supre as células cartilaginosas em desenvolvimento. Uma lesão nesta região pode resultar em interrupção de crescimento no local da fratura.

b) Zona de proliferação cartilaginosa: quanto maior o número de células desta camada, maior a produtividade e potencial de crescimento (esta zona possibilita ver o potencial de crescimento e a maturação óssea).

c) Células hipertróficas: maior presença de condrócitos, que são as células ósseas propriamente ditas, e não há crescimento ativo nesta zona. É aqui que a matriz cartilaginosa diminui e temos um osso mais “duro“ e menos moldável. Portanto esta seria a porção mais fraca da Fise e sujeita às forças de cisalhamento das energias, que determina uma fratura.

d) Zona de calcificação: local onde ocorre a calcificação dos condrócitos e se aparentam mais ao osso adulto. O desenvolvimento da Fise e acúmulo de camadas determinam o crescimento ósseo e a estatura da criança.

Outro fato interessante é que o crescimento ósseo se dá no período noturno, durante o sono, daí a importância de se ter uma boa qualidade do sono.

 

Como o osso infantil reage à fratura

Normalmente, o osso infantil tem maior capacidade de remodelação, de acordo com as forças determinadas pelo peso corporal e contrações musculares, além de serem mais “elásticos“ (daí as fraturas em galho verde), o tratamento das fraturas tem bons resultados.

No caso das crianças, a grande preocupação do ortopedista é determinar se houve lesão da Epífise ou da placa de crescimento, pois apesar de geralmente benignas, as fraturas em crianças com lesões na placa de crescimento têm potencial de levar a deformidades e diferenças entre os tamanhos dos membros.

Veja as diferenças ósseas entre a mão do adulto e da criança:

1) Nas duas primeiras imagens abaixo existe fratura do punho em adulto – a placa epifisária está fechada; a fratura envolve a articulação e será necessária uma cirurgia.

2) Na terceira imagem vemos raio-X normal de uma criança em que aparece a placa de crescimento aberta, ou seja, a criança ainda está em fase de crescimento:

 

Porque dar atenção à dor no caso das crianças

Muitas crianças também chegam ao Pronto-Socorro Infantil com queixa de dor na parte diafisária da tíbia, perto do joelho ou na parte média da perna, sem que haja indícios de outras doenças. Nestes casos, o médico ortopedista classifica como “dor do crescimento”, quando a membrana que reveste os ossos (periósteo) se distende e dói em algumas crianças. Geralmente, desaparece com o tempo.

Porém, alguns tumores ósseos eventualmente se iniciam com distensão do periósteo. Por isso, além de um diagnóstico diferencial, é importante que as crianças com o tipo de dor sejam acompanhadas de perto, sempre com vista à pesquisa dos tumores ósseos em fase inicial.

E em caso de dúvidas, consulte sempre um especialista, e dê atenção às queixas das crianças, pois elas muitas vezes não conseguem se expressar adequadamente.

Referências bibliográficas:
Ortopedia pediátrica 2 edição, Mihran Tachdjian, MD
Rockwood, Fractures

 


 

Dr. Marcelo Medeiros

Dr. Marcelo Medeiros é Diretor de Relacionamento Institucional da Rede de Hospitais Leforte e médico ortopedista.

 

 


 

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