Dr. Paulo Rizzo Genestreti fala sobre Diabetes

Entrevista com Dr. Paulo Rizzo Genestreti, médico endocrinologista do Hospital Leforte


O diabetes não tem cura (seja do tipo 1 ou do tipo 2). Embora venha crescendo – já são 12 milhões de brasileiros diabéticos – e seja uma doença conhecida, há um desconhecimento crônico sobre sua gravidade e muitas pessoas que têm diabetes sequer sabem disso. Tudo muito perigoso, porque não há um tipo mais grave do que outro. Tanto no tipo 1 como no 2, se não for tratado adequadamente,  pode desencadear problemas sérios, algumas vezes letais.

Em entrevista, o médico endocrinologista do Hospital Leforte, Paulo Rizzo Genestreti, especialista em diabetes, ressalta a necessidade de mais ações que disseminem informação, mas destaca também maior comprometimento do sistema de saúde e do próprio paciente. Do contrário, fica mais difícil combater e controlar o diabetes.

 

O que é diabetes?

Diabetes é uma condição crônica que tem como denominador comum a hiperglicemia, ou seja, o excesso de glicose no sangue (acima dos valores considerados normais). Na verdade, o diabetes pode começar muitos anos antes de se ter o diagnóstico, que é obtido com o exame de sangue.

Existem dois tipos principais de diabetes: o tipo 1, que acomete entre 5% e 10% dos diabéticos, e o tipo 2%, que corresponde a 90% dos casos.

 

Tipo 1

É uma doença autoimune. Chega um momento da vida em que o organismo não reconhece mais a própria célula beta, que produz insulina, e começa a destruir essa célula. Consequentemente, a insulina passa a ser produzida em quantidades insuficientes ou para de ser produzida. Geralmente, esse tipo de diabetes aparece na infância ou adolescência, e até mesmo bebês podem apresentar a doença.

 

Tipo 2

O organismo não consegue usar adequadamente a insulina que produz ou não produz insulina suficiente para controlar a taxa de glicemia. Inicialmente, é comum ocorrer resistência à insulina, que faz com que o corpo produza mais para compensar. Até que a célula beta do pâncreas, responsável pela produção do hormônio, entra em esgotamento, ocasionando a elevação da glicemia. É mais comum acometer adultos acima dos 30 anos, embora existam casos em pessoas mais novas, até crianças.

 

Entrevista com Paulo Rizzo Genestreti

O diabetes, em muitos casos, é uma doença assintomática. Por si só, isso já é um alerta, certo?

Sim, esse tipo de condição acaba sendo muito perigosa, justamente pela ausência de sinais e sintomas. No tipo 1, a pessoa sabe até mesmo o dia em que ficou diabético, pois há sintomas claros. Já no tipo 2 não. Descobre-se em um exame de rotina ou quando a pessoa tem um derrame ou infarto. Quando muito, o sintoma do tipo 2 é uma tontura, uma perda de peso, vista embaralhada, fraqueza, aumento do apetite, vontade de urinar mais a noite… Porém, na grande maioria dos casos, é doença assintomática.

 

Por isso da importância dos exames de rotina?

Exato. Diabetes é uma condição que, se não tratada, passa a se tornar uma doença grave. E não tem cura. Mas se o tratamento é correto, o paciente consegue ter boa qualidade de vida e reduzir os riscos das complicações.

 

Quais são os fatores de risco?

No diabetes tipo 2, o principal fator de risco é a obesidade. Segundo o endocrinologista do Hospital Leforte, Paulo Rizzo Genestreti, o aumento da prevalência de obesos no mundo caminha paralelamente ao crescimento do número de casos de diabetes. Já no tipo 1, conta o fator autoimune. Importante lembrar que há ainda a forma gestacional, com incidência entre 2% e 10%. Geralmente, relaciona-se a mães com história familiar de diabetes, que têm histórico de pré-diabetes ou com ganho excessivo de peso.

 

O diabetes pode decorrer de alguma outra doença?

Pode sim. Doenças endócrinas predispõem ao diabetes, como hipertireoidismo. Risco maior também quando há uso crônico de corticoide ou pessoas que precisaram retirar parte do pâncreas ou que têm pancreatite aguda ou crônica. São situações que podem levar ao desenvolvimento do que chamamos de diabetes secundário.

 

Há exagero em associar o consumo excessivo de açúcar com o diabetes?

Até existe certo exagero, mas há muita verdade nisso, principalmente quando há ganho de peso. Alguns casos, o consumo excessivo de açúcar começa na infância e essa criança cresce com esse hábito e pode se tornar um adulto obeso, já que o açúcar é bastante calórico. Percebemos crescimento no número de adolescentes diabéticos, geralmente por conta da obesidade.

 

No caso do pré-diabetes, há chances de reverter a situação, certo?

Se houver cuidados adequados e em tempo, sim é possível. O pré-diabético é aquela pessoa que não preenche critérios de diagnóstico de diabetes, que é a glicemia de jejum maior ou igual a 126 mg/dL. Para ficar mais fácil de entender, a glicemia normal é até 99 mg/dL, e entre 100 mg/dL e 126 mg/dL, a pessoa não é nem diabética e sim pré-diabética. A glicemia de jejum normal ou menor que 126 mg/dL, e  com curva glicêmica de 2 horas maior ou igual que 140 mg/dL e menor que 200 mg/dL , também entra no quadro pré-diabético. Essa pessoa precisa ser tratada rapidamente com dieta, atividade física e, em alguns casos, com medicamento. As chances se dividem entre 1/3 manter-se pré-diabético, 1/3 recuar e 1/3 desenvolver a doença.

 

A condição de pré-diabetes traz riscos maiores à saúde?

O pré-diabético tem os mesmos riscos cardiovasculares que um diabético, entre outros problemas. É muito importante tratar rápido essa pessoa, porque uma vez que o quadro passa para diabetes, é irreversível. Novamente reforço a importância dos exames periódicos.

 

Mas há uma faixa etária que precisa estar mais atenta aos exames de rotina?

Sim, todo adulto com sobrepeso IMC > 25 kg m2 e com pelo menos um fator de risco, como pré-diabetes, hipertensão, infarto, histórico na família, colesterol elevado e diabetes gestacional. Esse perfil deve fazer anualmente exame de sangue. Indivíduos sem fatores de risco devem fazer exames a partir dos 45 anos.

 

Há diferença de gravidade dependendo da faixa etária?

Não é a idade que difere, mas a maneira como a doença evolui. Se não tratar, muito provavelmente haverá complicações agudas e crônicas da hiperglicemia. Um jovem que não tratou terá problemas, assim como pessoas mais velhas. O que pode agravar é a duração da doença e outros problemas como doenças cardíacas e renais associadas, por exemplo, que são mais comuns no idoso.

 

Perda de visão e amputação de membros são complicações relativamente comuns?

Infelizmente, sim. A doença arterial periférica pode levar à amputação, à cegueira, à perda função renal, exigindo diálise. Há complicações que acabam acarretando a inflamação de nervos, podendo causar desde dores lancinantes nas extremidades até uma total anestesia. Nesse grau, a pessoa diabética corta o pé e não percebe. E quando não há o controle adequado, existe má cicatrização.

Porém, o mais grave e o que mais mata o diabético é a doença cardíaca, principalmente infarto.

 

A insulina representa um marco no tratamento do diabetes?

Sem dúvida. Aliás, o Dia Mundial do Diabetes é em 14 de novembro porque é data de nascimento de Frederick Banting, pesquisador canadense que, em 1921, descobriu insulina. Ele ganhou um Nobel de Medicina por isso.

Antes, o tratamento era não comer. Na época, a grande preocupação eram as crianças com o tipo 1, porque não podiam se alimentar adequadamente. Se comessem, a glicose aumentava e havia risco de coma. A insulina passou a oferecer um tratamento.

O diabete tipo 1 vai sempre precisar de insulina, e o tipo 2 pode necessitar. Porém,no tipo2  é preciso considerar a progressão da doença, quando a pouca insulina que a célula beta produz deixará de existir. Existem medicamentos orais muito potentes, mas para funcionarem no tipo 2, a pessoa precisa ter um pouco de reserva de insulina. Caso contrário, precisará de insulina.

 

Problema de saúde pública

O diabetes, por si só, é uma carga muito grande para o indivíduo e para a família. Para o sistema de saúde público e privado também?

Sim, é um problema de saúde pública. As complicações do diabetes podem ter altíssimo custo para todos os sistemas de saúde. Diálise três vezes por semana, uso de prótese e stent, cirurgia cardíaca, sequelas de AVC… são complicações com custo elevado.

Daí a relevância de se investir em medidas preventivas. Não adianta apenas ter ótimos hospitais se muitas unidades básicas sequer tratam corretamente a glicemia.

 

O senhor acompanha essa dinâmica? Falta mesmo melhor acompanhamento na base?

Tenho boa experiência no assunto. Sou coordenador editorial da Diretriz de Tratamento do Diabetes nas Unidades Básicas de Saúde do estado de São Paulo vigente atualmente. Falta ao sistema público um modelo de gerenciar o tratamento. Não adianta ter os medicamentos para tratar o diabetes se não há um acompanhamento do diabetes naquela região. Sem gerenciamento não dá para saber se o tratamento está ou não adequado. E se não estiver, possivelmente haverá complicações, gerando custo. O ideal não é tratar a complicação, mas evitá-la.

 

As pessoas têm ideia da gravidade do diabetes?

Geralmente, não. Uma equipe da Editora Abril e da USP-Ribeirão Preto fez uma pesquisa* sobre a percepção que pessoas com e sem diabetes tem sobre a doença. Menos da metade dos diabéticos relacionam a doença com problemas do coração ou AVC, e cerca de 30% dos não diabéticos fazem essas associações. Ou seja, as pessoas não têm a real noção de que é uma doença que mata.

No mundo, a estimativa é algo em torno de 450 milhões de pessoas com diabetes, e a previsão para os próximos 30 anos é chegar em 650 milhões de diabéticos.

*O Que os Brasileiros Sabem (e Não Sabem) sobre o Diabetes,

Como mudar isso?

Informação. E isso é algo muito sério. Por exemplo, existe um charlatanismo que tem prejudicado o conhecimento sobre a doença. Propagam informações de cura do diabetes com chás e outras medidas caseiras.

Precisamos ampliar o alcance da informação. Por exemplo, novembro sempre foi o mês de conscientizar sobre o diabetes. Embora o câncer chame mais a atenção, o diabetes mata mais que AIDS malária e tuberculose juntos. No atestado de óbito, estará que a pessoa morreu vítima de infarto, mas a causa foi o diabetes.

Os provedores de saúde, como médicos, dentistas e demais áreas de atuação, pessoal do laboratório também precisam ser melhor informados, pois eles têm obrigação de orientar.

 

 

 

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