A mãe recém-nascida: gestação e o puerpério

A mãe recém-nascida: gestação e o puerpério

Por Alice Alexandre Alves de Santana, Psicóloga e Psicanalista do HMCG e especialista em psicologia hospitalar; e Daiane Piarete, Psicóloga e Arteterapeuta do Hospital Christóvão da Gama e Especialista em psicologia hospitalar e psicoterapia junguiana

 

A gestação é um momento marcado por muitas mudanças na vida de uma mulher como alterações hormonais, corporais, psicológicas, sociais, econômicas, entre outras, trazendo a vivência de sentimentos ambivalentes, a ela, relacionados. Cada mulher vivencia esse período de forma subjetiva, de acordo com a sua história pessoal e familiar, vivências com figuras primárias, construção e visão de mundo e a representação simbólica que possui da gestação.

Em nossa cultura a maternidade é vista de forma idealizada e qualquer sentimento negativo da mãe para com o bebê, é visto como algo inadmissível, dificultando desta forma, que as mulheres revelem e compartilhem os sentimentos conflitivos. Apesar de ser uma experiência permeada por emoções positivas e agradáveis, também é uma fase caracterizada por muitas renúncias e abnegações. Por isso, a possibilidade de expressão das emoções despertadas, contribui positivamente para essa fase de transição.

Do ponto de vista psicológico, trata-se do nascimento de um novo papel social, da construção de uma nova identidade: a identidade materna, a qual terá que integrar aos outros papéis sociais já existentes em sua vida. Contudo, essa construção psíquica muitas vezes não ocorre junto à evolução da gestação ou posteriormente ao nascimento do bebê, pelo contrário.

Esse processo pode demandar um tempo interno maior, do qual a mulher não dispõe, devido às exigências práticas da maternagem. Em outras palavras, trata-se de uma experiência que requer a criação de um espaço psíquico para a chegada de um filho, porém a realidade externa e as necessidades do bebê se impõem, comprometendo esse trabalho de organização interna da mãe.

O ciclo gravídico puerperal é um período completamente novo, caracterizado pela chegada de um bebê recém-nascido e uma mãe recém-nascida, o qual implica num processo de transformação psíquica que envolve três grandes momentos:  a transformação da filha em mãe (conflitos relativos à relação com a própria mãe podem se atualizar); a mudança da autoimagem corporal (o corpo está irreconhecível) e; a relação entre sexualidade e a maternidade, (agora encontra-se um terceiro elemento entre o casal, sendo que este precisa encontrar um espaço para o bebê dentro dessa nova configuração, para preservar a sua sexualidade).

Trata-se de um momento complexo, devido à intensidade emocional vivida pela mulher, afinal a forma com que cada uma lida com tal experiência, dependerá também de sua própria organização psíquica, ou seja, da posse de recursos internos mais ou menos estruturados.

Em alguns casos inclusive, as mulheres durante a gestação e/ou após o nascimento do bebê desenvolvem alguns quadros clínicos, que se diferem pela quantidade e sobretudo, pela intensidade dos sintomas, sendo os mais comuns:

O blue puerperal (tristeza materna): caracterizado pelo estado de humor deprimido, além de outros sintomas como: desânimo, angústia, impaciência, irritabilidade, baixa autoestima, cansaço, choro, tristeza, insegurança em relação ao desempenho da maternagem, entre outros. É uma condição que não incapacita a mãe de exercer os cuidados ao bebê, mas os sintomas desaparecem com o tempo.

A depressão pós-parto: é um quadro clínico mais grave podendo trazer comprometimento significativo no relacionamento entre a mãe e o bebê. É um sofrimento psíquico intenso e persistente, com presença de sintomas como: oscilações de humor, tristeza profunda, desinteresse pelas atividades cotidianas, irritabilidade, doenças psicossomáticas, alterações no sono, no apetite e na libido; além da rejeição do bebê e, consequentemente a incapacidade de cuidá-lo. Os sintomas podem se agravar, chegando inclusive, a pensamentos suicidas e homicidas.

É importante destacar que alguns fatores de risco tais como (histórico prévio de transtorno depressivo ao longo da vida e durante a gravidez; complicações clínicas e hospitalizações durante a mesma; gestação não planejada/desejada; histórico de aborto ou óbito fetal; dificuldades financeiras; conflitos conjugais e familiares) estão correlacionados com maior incidência de depressão no pós-parto.

A psicose puerperal: é um quadro acentuadamente grave, caracterizada pela perda do senso de realidade, delírios e alucinações. Os sentimentos de angustia são da ordem do insuportável, podendo aparecer também sintomas como; pensamento desconexo e rituais obsessivos. Neste caso se faz necessária a presença de um familiar que possa realizar a função materna e atender as necessidades físicas e emocionais do bebê, visto a impossibilidade da mãe de realizá-las.

É importante ressaltar que para todos esses quadros mencionados anteriormente, é indicado o acompanhamento de profissionais especializados na área da saúde mental, sobretudo o acompanhamento psicológico e nos casos mais complexos, também o tratamento psiquiátrico (quando necessário, introdução de medicação). Além destes, outros recursos, tais como terapias em grupos especializados e cursos para gestantes, curso de shantala, técnicas artísticas, entre outros, também podem funcionar como vias de expressão do emocional.

Por fim e não menos importante, o suporte familiar e sobretudo do cônjuge contribuem efetivamente para o desenvolvimento emocional da mulher. O acolhimento aos seus sentimentos, além de compreensão e apoio nesse momento único, ou seja, livre de exigências quanto às atitudes idealizadas pela sociedade, podem auxiliá-la no fortalecimento da auto confiança durante o momento de transição e construção de sua identidade materna.

 

*O Hospital Chrsitóvão da Gama, do Grupo Leforte, conta com infraestrutura completa para o acompanhamento pré-natal, incluindo medicina fetal de alta complexidade, além de pronto-socorro obstétrico. maternidade e pediatria. Saiba mais aqui 

 

 

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