A evolução na F1 – 25 anos depois da morte de Ayrton Senna

No mês em que completa 25 anos da morte de Ayrton Senna, o diretor médico do Leforte no GP Brasil de Fórmula 1, Dino Altmann, fala sobre as diversas mudanças que ocorreram no automobilismo de lá até agora, e como as competições alcançaram um elevadíssimo nível de segurança.

 

Artigo por Dino Altmann, diretor médico do Leforte no GP Brasil de F1

Podemos dizer que muito se fez depois da morte do Ayrton Senna, e vários aspectos precisam ser considerados. Inicialmente, a morte de Ayrton, em 1994, foi um choque para toda a F1, tanto pela perda de uma vida (fazia 12 anos que o automobilismo não perdia um piloto em competição), como por ser quem era, o maior ídolo das pistas naquele momento, se não o maior de todos os tempos.

O fim de semana do GP de San Marino, em Imola, trouxe muita tristeza. Na sexta, Rubinho Barrichello acidentou-se de forma grave; no sábado, Roland Ratzenberger perdeu a vida em um grave acidente; e no domingo, foi Ayrton. Uma sequência que marcou e transformou a F1, porque houve uma forte reação a partir daí – por parte da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) e muito também pelo empenho do Prof. Sid Watkins, amigo próximo de Ayrton e médico responsável da F1 à época.

Algumas medidas imediatas foram tomadas, quase sempre em reação às lesões decorrentes de acidentes e que se mostraram valiosas para as competições.

O Instituto FIA, que foi criado para estudar e implementar mudanças, passou a ser o espaço para o trabalho de engenheiros especializados, do Prof. Sid Watkins e mais tarde também  Charlie Whiting, diretor de provas da F1, que faleceu esse ano. Outra pessoa essencial para grandes avanços do automobilismo.

 

Parte 1: evolução dos carros

A primeira mudança proposta foi subir a altura do cockpit dos carros. No acidente de Ayrton, a suspensão dianteira se soltou e atingiu a cabeça dele. Como o cockpit é a cápsula para preservar a interidade dos pilotos, estendê-lo para o alto significou mais proteção à região da cabeça. Ao redor da cabeça também foi adicionada uma espuma de absorção de impacto.

Testes de resistência do cockpit foram introduzidos e essas células alcançaram altíssima resistência. Como comparativo, a lateral do carro que Ratzenberger pilotava se desfez com o acidente e parte do cockpit foi rasgada. Hoje, isso não aconteceria mais.

Outra preocupação foi desenvolver soluções também para a frequente soltura de rodas. Para isso, foram presas com fita de aço, evitando que os itens se desprendessem em colisões e “saíssem voando”, colocando em risco a segurança dos pilotos, público e de comissários de pistas. Estes últimos, aliás, por várias ocasiões foram vítimas do tipo de evento e para tanto, foram desenvolvidos postos de sinalização que possuem grades para prevenir que sejam atingidos pelos mais diversos objetos que possam se soltar.

Com o acidente do Pedro Paulo Diniz, o Santo Antônio dos carros, que fica sobre a cabeça dos pilotos, também ganhou robustez, para evitar que quebrasse em um capotamento. E ainda na trajetória de evolução dos carros, foram introduzidos os chamados crash box (parte do bico e da parte traseira) que são cones de absorção de impacto de fibra de carbono, cuja parte interna lembra uma colmeia.

E tem ainda o HALO, o equipamento implantado mais recentemente. Ele surge como reação, principalmente, à morte de Henry Surtees, um piloto da F3 que foi atingido por uma roda solta e de Justin Wilson piloto da Fórmula Indy, que no circuito de Pocono nos Estados Unidos foi atingido na cabeça pelo bico de um carro acidentado.

 

Parte 2: proteção pessoal

Entre as criações para proteção pessoal, a inovação mais importante foi o HANS, equipamento que protege a cabeça e o pescoço do piloto em caso de acidentes. Não registramos mais nenhuma lesão cervical com comprometimento medular depois da implantação do HANS. Mesmo os traumatismos cranianos passaram a ser mais leves, uma vez que ele diminui forças rotacionais responsáveis pela gravidade destas lesões.

Já para os capacetes, a mudança para fibra de carbono, mais leve e resistente, representou relevante avanço. Com o acidente do Felipe Massa, houve redução da abertura do visor e um revestimento que aumentou a resistência na parte mais vulnerável do capacete, logo acima da viseira. Por dentro, o revestimento com espumas especiais também atua de forma eficiente na absorção de impacto.

 

Parte 3: circuitos mais seguros

O safety car virtual (VSC) foi implementado em 2015, depois da morte do piloto Jules Bianchi, no circuito do Japão. O recurso oferece mais segurança aos pilotos na ocasião de um incidente durante a prova.

Na verdade, pensar a segurança dos circuitos depende de um conjunto de fatores: análises de raio e velocidade de contorno de curva, ampliação e asfaltamento da área de escape, criação de barreiras de pneus ou mais recentemente, barreiras de proteção de alta velocidade – TECH PRO, reforço nas cercas de proteção do público, entre tantas outras ações de melhoria.

 

Parte 4: tecnologia e monitoramento em tempo real

Hoje, contamos com os acelerômetros de ouvido (ear accelerometer). Trata-se de um dispositivo intra-auricular adaptado ao fone de ouvido do piloto e permite o registro das forças que atuaram na cabeça do piloto em casos de acidentes. Sua posterior análise, baseada nos achados clínicos, permite melhor entender as possíveis consequências e tomada de medidas preventivas.

Temos ainda as luvas biométricas que tem um sensor acoplado, item que auxilia na tomada imediata de decisões. Por exemplo, se um piloto se acidenta e sua retirada do carro depende de trabalho de equipe de resgate, é possível acompanhar, em tempo real, sua saturação do oxigênio, seu pulso e seus movimentos. Com isso, a equipe médica age baseada na telemetria, determinando a urgência da situação.

A luva passou a ser obrigatória desde o ano passado.

Há outros pontos a se falar, mas em comparação há 25 anos atrás, não resta dúvidas em afirmar: vivemos hoje outra realidade nas corridas de Fórmula 1. Estes conceitos também se disseminaram para outras categorias de monopostos, protótipos e turismo.

 

Search

+